Passe

– Amor, você tem engordado muito ultimamente.
– Pois é minha linda, eu sei…
– Amor, você sabe que isso não é normal né?
– Sim minha linda, estou comendo demais, preciso maneirar.
– Não amor, não é só isso, tem mais coisa…
– Tem sim minha linda, parei a academia também, sei que preciso voltar, volto na segunda.
– Você parou a academia e está comendo demais… Por que?
– Não sei minha linda, só estou com preguiça, mas volto a malhar a partir de segunda-feira e a comer menos a partir de agora.
– Não.
– Não o que?
– Tem mais coisa por trás disso.
– Como assim?
– Não sei, você mudou muito.
– Não mudei minha linda, estou comendo demais, só isso.
– Tudo está muito estranho.
– O que está estranho minha linda?
– Você não parece que é você.
– Hã?
– Estou sentindo uma energia muito ruim vindo de você.
– Está?
– Sim… Estou vendo uma aura negra a sua volta.
– Está?
– Sim, e eu já fui no centro espírita, e o que eles me falaram fez muito sentido.
– O que eles falaram?
– Que você tem um encosto.
– Encosto?!?
– Sim, e precisamos ir no centro tomar um passe verde.
– Passe verde?
– É, passe verde, para espantar encostos.
– Puta que o pariu…
– Tá vendo, é o encosto falando por você!
– Ju, pare com essa loucura, meu problema é dieta.
– Dieta e encosto.
– Só se for encosto de comida!
– Você não entende mesmo, mas te garanto que tomando um passe verde você ficará novo em folha, desculpe o trocadilho.
– Olha aqui, vamos fazer o seguinte, eu não vou no centro espírita e começo dieta, você vai ver como eu fico sequinho em um mês, o que me diz?
– E o encosto?
– O que tem esse diabo de encosto?
– Ele vai ficar em você até você tomar o passe verde.
– Eu não estou com encosto e não vou tomar passe nenhum!
– Vai sim, você precisa amor.
– O único passe que eu preciso é o do metrô.
– Amor, acredite em mim, vamos no centro e você vai ver o encosto ir embora.
– Amor… não.
– Por que?
– Por que o encosto não quer, ele me falou. Pra dizer a verdade eu estou até gostando dele, ele dá uns toques legais.

– Baccili Junior

No assento do ônibus havia um homem

Meu senso de justiça não tem limites, quando vejo algo errado trato logo de buscar justiça, como Batman em Gothan ou Super-homem em Metrópolis. Só que as vezes as coisas dão errado…
Avenida Consolação, dez e meia da noite. Saio da faculdade cansado e pego o ônibus lotado, como de costume. No ônibus não encontro nenhum lugar vago para sentar e começo a tentar dormir em pé, apoiando minha cabeça no braço que está esticado, segurando a barra de ferro.  Após duas paradas uma senhora entra no ônibus, a julgar pelas suas rugas daria uns setenta e cinco anos.  O olhar da pobre velhinha já indicava que suas pernas não aguentariam ficar em pé, mas ninguém cedeu seu assento. Ver aquela cena foi me deixando inconformado e pensei  “Como esse povo não tem educação”. Na minha frente, sentado, estava um homem, por volta dos trinta e cinco anos, sentado como se os olhares da senhora não fosse com ele. Nem para disfarçar que estava dormindo.  Minha revolta foi aumentando, potencializada pelo difícil dia que tive, cutuquei o homem no ombro e já falei, em voz alta:

– “Você não tem vergonha? Deixar esta senhora em pé enquanto você fica aí sentado no banco reservado para pessoas idosas?”


Nesse momento o ônibus inteiro estava olhando a cena que se desenrolava e eu, cheio de moral, já estava contando que o homem iria se levantar e ceder lugar a senhora. Eis que o homem falou:

– “Não posso sair daqui”
– “E por que não?”
– “Eu não tenho uma perna, esta é mecânica”.

Imaginem a minha cara.

B.J.

Futebol?

Estou começando a gostar de futebol. Não pelo esporte em si, que ainda não entendo (até hoje não sei a regra do impedimento), mas para poder conhecer algum homem de verdade, porque me parece que é o único reduto confiável ultimamente. Porém, neste caso, os homens são geralmente marmanjos barrigudos que ficam com a cerveja na mão em frente a telinha no domingo, ou no Pacaembu com outros gordos barrigudos.
Se os homens começam a deixar de gostar de mulher, elas vão atrás dos que restam.  Começou a trabalhar no meu departamento uns daqueles tipos baixinho, careca e gordinho que ninguém dá nada. Nenhuma dá bola e até comentam do jeito dele nas nossas idas ao banheiro. Passada algumas semanas, aquele mesmo gordinho e careca não era tão mais feito. Até que era simpático o jeito que ele arrotava na mesa do restaurante. Passado um mês e adivinha só? Minhas amigas todas já estavam dando uma olhada um pouco diferente… até que ele é bonitinho né…

Não é de se espantar amiga, quando se está com fome, até coxinha vira caviar.

-Maria Clara Andreoli

Histórias do Paulo – O brinco

Paulo é um garanhão, aliás, quer ser garanhão. Todos os dias passava pela rua e as mulheres suspiravam por ele. Pelo menos achava isso. Gel no cabelo, perfume pelo corpo, andava sempre estiloso å caça da próxima vítima. De fato não era feio, ao melhor estilo amante profissional conseguia sair com algumas, porém sempre se dava mal por ser muito enrolado. Enrolado como eu nunca vi. Este espaço é dedicado as aventuras de Paulo, suas investidas frustadas para conseguir ser o garanhão da mulherada. Estas são as histórias do Paulo.

O brinco

Paulo em seu carro descendo a rua Augusta em um sábado a tarde encontra uma garota no carro ao lado, cantando ao som de alguma música da rádio. Paulo se olhou no espelho, deu aquela ajeitada no cabelo e pareou com a garota no semáforo. Com aquela buzinada básica para chamar a atenção, pede que ela abaixe o vidro do carro. A moça olha um pouco desconfiada mas acaba abrindo o vidro:

– Oi!
– Oi
– O sinal já vai abrir então vou ser direto, me passe seu telefone que eu te ligo e marcamos algo, o que acha?
– Ih cara, eu nem te conheço

O sinal abre e os carros entram em movimento. O bom da rua Augusta é que existe um excesso de semáforos, e eles voltam a se encontrar dois blocos depois, no próximo semáforo fechado:

– Prazer, meu nome é Paulo! Trabalho na avenida Angélica e estou solteiro.
– Prazer Paulo, meu nome é Jéssica
-Prazer Jessica, agora que já nos conhecemos já posso te chamar para sair?

Jessica pensou um pouco e, como havia achado Paulo até apresentável, resolveu dar o telefone:

-Tudo bem, anota meu telefone e me ligue

Paulo havia conseguido em duas paradas de semáforo o telefone da garota. Mais a noitinha ele ligou para ela:

– Oi Jessica, sou o cara do trânsito, tudo bem?
– Oi Paulo, tudo bem e você?
– Tudo ótimo gatinha, melhor ainda falando com você
– Ah ta…
– Então, vamos sair hoje?

Jessica pensou por um instante, mas como suas amigas estavam todas namorando e ela estava sem ter o que fazer em um sábado a noite, decidiu aceitar o convite:

-Tudo bem, mas vamos nos encontrar em algum lugar publico, ainda não te conheço. Vamos sei lá, ao Starbucks
-Tudo bem! Nos encontramos lá as 21, pode ser?
-Pode!

Paulo usou seu melhor perfume e foi ao encontro. Lá se conheceram, conversaram bastante e, como era de se esperar, se beijaram:

-Tá de carro?
-Não, vim de taxi
-Vamos pro meu carro então, vamos dar uma volta.
-Ok!

E no carro rolou aquele amasso típico de casais que acabaram de se conhecer

-Vamos para outro lugar?
-Não, ainda não nos conhecemos e está tarde, mas marcamos outro dia
-Tudo bem, te deixo em casa então.

Foi uma boa noite para Paulo. No dia seguinte ele recebe uma ligação. Claudinha:

– Oi Claudinha, tudo bem?
-Tudo bem sim, vai fazer o que hoje?
-Nada, quer sair?
-Vamos agora!

E Paulo teve um domingo de amassos no carro com Claudinha. “Final de semama perfeito” pensou.
Na segunda Jéssica ligou pra Paulo:

– Oi Paulo, tudo bem?
– Oi Linda, tubo bem e você?
– Ótimo. Viu, eu deixei cair meu brinco no seu carro no sábado a noite. Você não quer pegar pra mim? É um redondinho de pérola
-Claro gata, pego sim e te levo hoje a noite
-Perfeito então. Ah, Só para você saber, adorei nossa noite juntos!
-Eu também gata! A noite eu te entrego.

Após uma breve procuradela Paulo encontra o brinco de pérola. A noite Paulo se arruma todo, passa seu perfume e vai ao encontro de seu novo affair. Paulo chega na casa dela e manda um sms: “Estou aqui embaixo”. Jéssica, já pronta, desce do elevador de seu prédio e vai ao encontro de Paulo. Toda feliz Jéssica dá um beijo em Paulo:

– Oi Lindo, tudo bem?
– Oi Linda, tudo bem, estava morrendo de saudades!
– Ai Lindo, eu também!
– Olha, trouxe seu brinco, está aqui no guarda-luvas do carro
– Ai que bom, dá pra mim!
– Peraí, tá aqui:
– Mas o que é isso?
– É o seu brinco linda.

Após dar um tapa na cara e jogar o brinco em Paulo, Jéssica se vira e entra para seu apartamento novamente. O brinco era da Claudinha.

– B.J.

Que vitória hein João!

Eis que João, cansado de trabalhar durante anos e sempre ficar com o receio de ser mandado embora, decidiu mudar de vida e escolheu algo mais light, que não fosse preciso pensar muito: Resolveu tornar-se funcionário público. João ralou de estudar (mesmo!) e conseguiu passar em um dos concursos públicos mais concorridos do país! Um para mil era o número de candidatos/vaga.

E João estava feliz, agora ele tinha estabilidade vitalícia! –Mas que vitória hein João!  Seus amigos assim falavam.  E lá se foi para seu primeiro dia na repartição pública. João estava empolgado para o seu primeiro dia: –Não vou mais precisar me preocupar com nada, pensava. João então foi ao endereço solicitado. Lá no centro. E assim foi.

Ao chegar no endereço João viu o prédio que iria trabalhar, por fora um caco. Visivelmente um prédio velho, com os ladrilhos da parede externa cedendo e todo pichado. A cor era cinza, como o ambiente que o rodeava, uma selva de concreto com travestis imitando pavões nas esquinas em plena luz do dia. João ficou decepcionado com o que vira, não tinha estudado tanto para isso, mas já que estava lá, resolveu entrar. Ao chegar a porta do local, o segurança pergunta para João:

– Aonde vai?

– Quinto andar – Responde João

– Pode entrar

João achou estranho o fato de existir um segurança que só pergunta aonde vai e deixa entrar. Chamou o elevador e entrou, meio que constrangido ao ver o quão velho o elevador era. Apertou o quinto andar e, com um solavanco, o elevador se move em direção ao andar desejado. A decepção de João aumentou quando ele adentrou ao “departamento” que iria trabalhar. Lá foi recebido por um senhor muito educado e, após se cumprimentarem, se prestou a levá-lo a conhecer o ambiente:

– Bem vindo João a nossa repartição. Cuidado para não tropeçar com os tacos soltos no chão. Venha por aqui. Aqui é o nosso espaço para reuniões, são móveis velhos e por isso peço que tenha cautela com as cadeiras ao se sentar, pode ser que quebre. Ali ao fundo é o nosso ar condicionado. Está vazando água, mas não se preocupe, já colocamos um balde para que o chão não fique molhado e já providenciamos outro balde maior para o caso deste encher. Nosso ambiente é essa gritaria que está vendo, não é exatamente um bom ambiente, mas com o tempo você se acostuma. O filtro não tem água hoje, mas semana que vem (provavelmente) chega um galão. Se a sede for muita, você pode usar a torneira do banheiro, se tiver água. Ali será a sua mesa, espero que goste.

João pensou que tinha apertado o botão “quinto dos infernos”. Fios para todos os lados, filtros de força em cima das mesas, falta de água, prédio caindo aos pedaços… Pensou em desistir, mas havia se esforçado tanto para passar naquela prova que não poderia jogar fora todos aqueles meses estudados. Passou-se aproximadamente cinco meses e joão percebera que Infelizmente a estabilidade que tanto havia perseguido era para cima também. João estava fadado a ficar naquela cadeira e mesa pelos próximos trinta anos de sua vida.

João percebera que a tão falada estabilidade tinha outra face. Sentia profunda vergonha ao adentrar aquele recinto todos os dias. Largou tudo no sexto mês e voltou a vida incerta e sem estabilidade do mercado, feliz da vida.

-BJ

Você está fazendo isso errado

– Você, como o religioso que é, acredita na doutrina que fala que masturbação é imoral?
– Não, eu não acredito…
– E no celibato, você acredita?
– Não, eu não acredito…
– E quando a igreja se opõe a ordenação de mulheres? Você acredita que isso é correto?
– Não, eu não acredito…
– E a questão dos padres pedófilos? Você acredita que a igreja nunca soube de nada?
– Não, eu não acredito…
– E quando a igreja fala de sexo somente para reprodução?
– Não, eu não acredito…
– E na proibição ao uso da camisinha, mesmo com a AIDS tomando conta da África?
– Não, eu não acredito…
– E quando a igreja é contra o aborto de anencéfalos, você acredita que eles estão sendo coerentes?
– Não, eu não acredito…
– Você acredita que a postura da igreja hoje em dia é compatível com as sociedades modernas?
– Não, eu não acredito…
– Se você não acredita em nada do que eu te disse, por que não deixa de ser católico?
– O quê? E abandonar tudo o que acredito?

Anônimo

O sincero – casamento

Não é que eu não goste de você. Eu te amo. É que simplesmente sinto atração por outras mulheres. Como todo homem, nós sentimos atração por outras mulheres. Desculpe, mas é a realidade. O fato é o seguinte: conseguimos separar muito bem essa coisa de amor e sexo. O amor está lá em cima, o sexo está aqui, embaixo, fazendo volume em minhas calças.
Desculpe, mas Deus me deu uma vontade incontrolável de fazer sexo. Incondicional. Percebo uma mulher atraente a quilômetros de distância e automaticamente penso em formas de abordá-la, posições na cama, ou em como ela ficaria gostosa sem aquela calça apertada da academia. Não adianta. Isso você nunca vai bloquear em mim. Na realidade em nenhum homem. Não estou te traindo ao te contar isso, estou sendo o mais realista possível, acabando com a ilusão da monogamia. Você conhece algum casal que nunca deu uma escapadinha para aliviar? Eu não. Mas eu conheço casais que se amam, mesmo depois de vinte anos de casamento. Nem por isso ele não deu uma fora do casamento, só para aliviar a tensão.
Se Deus deu a mim e a todos os homens essa vontade de fazer sexo, porque não criou um mecanismo que bloqueasse isso no momento que achássemos uma parceira? Vai ver estamos biologicamente corretos nas nossas ações, aquele lance da reprodução e tal e que, perante as leis que aprendemos na igreja é pecado. Olha, eu não entendo como ele permite mas ao mesmo tempo proíbe. Vai ver ele tem uma boa desculpa.
Entenda que eu te Amo, e muito. Mas não vou fazer sexo só com você. Se você aceitar, podemos ser muito felizes, até escondo minhas escapadas de você, se preferir. E então, quer casar comigo?

– Quero, mas com uma condição: Tudo o que fizer, vou fazer também.

– Stefano Libacci & Maria Clara Andreoli