Te cuida

Te vejo

Te caço

Te laço

Te pego

Te arrebento

Te quebro

Te levanto

Te abraço

Te esfrego

Te beijo

Te cheiro

Te chupo

Te bato

Te como

Te gozo

Te canso

Te Amo

Te quero

Te cuida…

– B.J.

Para viver um grande Amor

Para viver um grande Amor é preciso sofrer e ser feliz, para viver um grande Amor. É fazer planos para sempre, é estar junto mesmo separado, e mais junto quando junto, para viver um grande Amor. É ver filme abraçadinho, é agüentar o mal humor, é escutar aquela música, para viver um grande Amor. É preciso deixar o sangue correr, a alma leve e o coração livre, para viver um grande Amor.
Para viver um grande Amor é preciso querer Amar, para viver um grande Amor. É preciso saber quando a estrela brilha na hora do nosso encontro, é preciso ir ao teatro juntos, é preciso brigar para o bem, para viver um grande Amor. É preciso ser amado também, é preciso falar junto a mesma palavra, é preciso encaixar na cama, para viver um grande Amor. Para viver um grande Amor é preciso saber que a vida não é fácil juntos, mas que sem ela é impossível, para viver um grande Amor.

– B.J.
(Tomando emprestado a frase de Vinícius)

Abstinência

Posicionar-se diante do desconhecido lhe traz expectativas e suspeitas. Em qual delas se basear? Não guiando por nenhuma delas e deixando se enfeitiçar pelas figuras brilhantes a sua volta é mais seguro. Ela estava sentada na varanda de seu quarto, observando o movimento das pessoas, suas feições e gestos. Quais seriam suas esperanças para o dia, para a semana, o ano? Do mesmo modo que não sabia o que havia ali, elas desconheciam sua existência.
Como podíamos ser tão insignificantes diante de toda essa imensidão? A verdade é que tentar se tornar especial para alguém em uma perspectiva maior não faria a menor diferença, seria mais uma união perante o restante da massa. Porém, ao enxergar seus olhos raiando ao vê-la atravessar a rua da sua casa e acalentá-la com seu abraço de velho amigo, faz com que ela sinta que todo o mundo parou naquele momento apenas para contemplar o quão sincero e significativo este amor era.
Pelo menos naquele momento, ela se sentiu única. Como se não houvesse e não precisasse de mais nada, apenas olhar em seu rosto pela manhã e perceber que não haveria mais despedidas, nem corações apertados pela ausência. A felicidade a invadia, como num impulso incontrolável de sensações, que emergiam para apenas uma, plenitude. Refletia como poderia ter ficado aqueles anos sem sentir seu cheiro em sua pele e como seus olhos tinham se acostumado a não enxergar tão belos e imperfeitos contornos.
Aquilo tudo poderia ser efêmero, a fugacidade da vida era sempre presente, seria preciso deliciar cada particularidade daquele sorriso. Não imaginava que previra o desfecho. No ápice do aconchego, ao se sentir abrigada como nunca, começou ouvir um barulho ao longe. Ele não parava, era constante e ocorria em intervalos regulares. Foi se tornando cada vez mais forte. Até que foi impulsionada a abrir os olhos, o despertador tocava. Notou que os móveis estavam diferentes e não era ali que havia deixado sua bolsa na noite anterior. Assustou-se, não podia acreditar. Virou-se para lhe perguntar se sabia o que havia acontecido. Então, suas desconfianças provaram-se verdadeiras.
Havia um lugar vazio ao seu lado, o cheiro não estava no travesseiro e o espaço não estava quente por conta de sua prévia presença. Sentou na cama, apoiou seu rosto às mãos e secando a lágrima iminente, prometeu a si mesma. Nunca mais se permitiria sonhar. Não com tal intensidade ao sentir, nem com tanto amor ao lembrar, muito menos com tanta saudade a sangrar.

– F.F.

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Há momentos

Há momentos em que nos sentimos vazios, sem nada a acrescentar, sem teorias, sem fundamentos, sem classe… mas também há momentos de enorme complexidade e regozijo, temperamento, suficiência… estes momentos estão descritos como a alma que canta leve e solta, vagando pelas palavras…

– B.J.

A chuva só cai no final do dia

Quando o apito da fábrica vem ferir meus ouvidos o retruque de São Pedro não falha e já trata de lançar a torrencial e já costumeira chuva, sem deixar dúvidas de que Ele possui o humor mais sádico do reino dos céus. Não bastasse o trânsito, somos obrigados a vir de nossos carros o balé aquático provocado pela aquaplanagem de carros e motos na dança mais desqualificada e sem graça.
Três horas depois e doze quilômetros percorridos consigo chegar em casa. Devido aos cafés e copos d’agua tomados a tarde inteira, minhas necessidades fisiológicas ordenam que eu entre em casa o mais rápido possível. Dentro do carro aperto o botão do portão automático. Não abre. A rua inteira sem energia e a chuva comendo solta. Dou de ombros e fico parado alguns instantes dentro do carro pensando no que fazer, minha bexiga logo avisa que não tenho muito o que pensar. Estaciono o carro em frente a garagem de casa, pego minha mochila com o notebook, minha pasta com documentos, o carregador do celular, tiro a frente do som e a coloco embaixo do banco (Afinal, bandido nenhum olha embaixo do banco), pego a chave do portãozinho, respiro fundo e abro a porta do carro. Saio em meio a trovões e barulho de água caindo, que agora está se tornando mais convidativa que antes.
Chego ao portãozinho com a mão esquerda segurando minha mochila, a pasta com documentos e o carregador do celular enquanto a direita tenta colocar a chave na fechadura. Obviamente não consigo abrir o portão de primeira e a chave emperra. Faço força para tirá-la de lá e a chuva me lembra da bexiga. O desespero começa a tomar conta de mim, não consigo tirar a chave, a chuva piora, a bexiga também. Começo a tentar girar a chave para os lados, frente e trás, cima e baixo… nada. O desespero está aumentando com o barulho da chuva que agora tem o som de uma sedutora cachoeira urínária despencando da troposfera direto para minha cabeça. Ensopado e nervoso volto para o carro, coloco a mochila, a pasta com documentos e o carregador do celular no banco de trás. O banco fica ensopado com o abrir da porta. Volto para o portãozinho.
Com as duas mãos tento com toda a força que me resta (já que cinquenta por cento dela estava focada em controlar minha bexiga) tirar a chave daquele pequeno buraco disforme e sem graça. Nada. Apóio a perna direita no portãozinho e puxo com as duas mãos o pequeno molho de chaves. Tento uma, duas, três vezes. Na terceira consigo recuperar a chave! Minha bexiga volta a chamar minha atenção para as consequências da demora. Minha segunda investida e o portão se abre facilmente, ainda bem! O que me separa de casa são apenas alguns metros da garagem até a porta. Já estou ensopado, apertado e desesperado. Vou correndo do portão a porta como se não houvesse amanhã. O som dos trovões e da chuva fazem este momento mais dramático. Um passo desesperado, dois três, mais três passos e alcanço a porta! Me esqueço do chão molhado. Escorrego. Maldito solado de madeira! Minha vida agora estava em câmera lenta, vejo os pingos passando por mim enquanto eu lentamente caio no chão. De cara. A bexiga não agüenta e faço ali mesmo.
A energia volta e o portão automático se abre levando toda a tinta da lateral de meu carro. Fico olhando aquela cena do chão, ensopado, quente da cintura para baixo, com o braço esticado e o molho de chaves na mão…

Dois minutos depois a chuva passa.

– B.J.