Ensaio sobre a felicidade

O senso comum que objetiva a necessidade de materializar e trazer tangibilidade ao intangível, metas e cumprimento pode ser chamado de felicidade por muitos. De fato, a sensação de tarefa cumprida traz a percepção boa imediata, faz bem a moral. Por causa do ego buscamos a travessia de um estado a outro considerado melhor e, tendo sucesso, sentimos a mais clara e vívida percepção de bem-estar, porém, trata-se de um estado momentâneo e com prazo de validade curto. O que fica é a memória que pode refletir a longo prazo no ser humano a auto-confiança de buscar e conseguir mais momentos e percepções similares, uma reação quase que psicossomática, se não o é, tornando-o viciado em realizar tarefas, tudo em busca do gozo. Logo, sucesso é igual a felicidade.

Esta situação é o motor para o sentimento humano continuar a agir, mas deve ser a máquina secundária do estado mental, mais como um subproduto:

Zaratustra — lhe disseram — procuras a tua felicidade com os olhos?” — “Que importa a felicidade? — respondeu ele — Há muito tempo que não aspiro já à felicidade; aspiro à minha obra”. — “Zaratustra — replicaram os animais — dizes isso como quem está saturado de bem. Não estás deitado num lago azulado de ventura?”: “Velhacos! — respondeu Zaratustra, sorrindo — como escolhestes bem a parábola! Também sabeis, porém, que a minha felicidade é pesada, e que não é líquida como a onda: impele-me e não me quer deixar, aderindo-se como pez derretido”.

– Extraído do livro “Assim falava Zaratustra”

No trecho do livro de Nietzsche o sentimento que existe a não aspiração à felicidade e sim à  chamada obra nos faz refletir sobre a condição humana: Somos feitos para a felicidade ou para realizar uma obra? O gozo não deve ser mais importante que a obra, a percepção de realização remete a sensação e, traduzindo-a fisicamente, o retorno do universo é sensorial e analisado pelo córtex cerebral como positivo ou não. Quanto maior a obra, maior é o retorno do universo, de forma positiva ou negativa.

Esse retorno, sentido fisicamente pelo organismo, é o que se pode chamar de felicidade.  O corpo todo sente a reação tanto da percepção de tarefa cumprida quanto da satisfação física impactada pelos eventos externos. Felicidade vivida é felicidade sentida. 

– Baccili Junior


A Condição de quem Ama?

A condição de quem Ama é refletida no corpo:

O estômago vira gaiola de borboletas
A mão não sabe se vai ou fica
O coração acha que é atleta
A boca fala o que não deve dizer
O ouvido escuta o que não foi falado
A cabeça fica a mil por hora, ao mesmo tempo que tudo passa devagar quando ela mexe no cabelo
O corpo sua frio em partes que nem sabia que existia
A perna fica bamba
O pulmão pára de funcionar
A mão fica fria quando ela se aproxima de seu rosto
O nariz se embriaga com seu perfume
A boca já não fala
O ouvido já não escuta
A pele arrepia com o toque
O coração encontra sua nova função: saltar pela boca
A boca aproxima
O olho cerra
A mão no quadril
O beijo

A calça não agüenta e estoura o zíper

É o Amor…

– Baccili Junior

Carta a José

Olá José, como vai?
Espero que leia esta carta, já faz muito tempo que tento falar com você. A última vez que te vi foi a quase dois anos, depois disso você sumiu e ninguém mais soube de notícias sua.
Nunca mais fomos correr no parque aos finais de semana, nem fazer barras, tampouco tomar açaí e água de coco enquanto conversávamos sobre nossos projetos. José, quando nos vimos pela última vez você estava tão cheio de si, animado, com sonhos, planos, e uma energia pela vida que contagiava todos ao seu redor. Onde está aquele homem forte, com olhar vibrante, sorriso estampado no rosto e semblante de muitos amigos? Lembro-me muito bem da época em que você fazia todos caírem na gargalhada com apenas um olhar ou uma palavra bem colocada, você realmente tinha o dom de fazer as pessoas rirem.
Você tinha sonhos e aspirava alto, tinha sede em mudar tudo a sua volta e desejava algo a mais do que ser apenas mais um na grande e cinzenta corredeira andando pelas artérias congestionadas e venenosas da pulsante selva de pedra. Você queria mais, muito mais, e, até o dia que você sumiu, estava conseguindo realizar seus sonhos.

Onde está o seu grande Amor José? Aquela mulher que fazia tudo para te ver bem, que colocava o Amor que tinha por você acima de seu respeito próprio, e suportou todos os seus erros e vacilos com a delicadeza que só uma pessoa com um sentimento tão puro poderia suportar. José, aprenda que todos erram na vida, e o seu erro foi em não perceber que ela era especial. Infelizmente a gente só percebe as pessoas que fazem diferença na nossa vida quando elas se vão. Ela está em paz agora, acredite.

Te invejava um pouco porque você tinha uma saúde de ferro, e se ficava doente, logo no dia seguinte já estava pronto para outra, ainda mais forte do que antes. “O que não me mata me fortalece”, não era o clichê que dizia para você mesmo? Eu me lembro bem, você tinha muita força mental e física. Essa energia está fazendo falta aqui.

Meu amigo, você tinha muita vontade de aprender coisas novas, e de certa maneira isso te deixava mais vivo, mais jovem. Quantas vezes você não dormia empolgado por ler Nietzsche, Gandhi, Jung, Clarice, Jabor ou até mesmo Michael Moore? Suas inúmeras divagações te inquietavam e serviam de combustível para continuar buscando sabe-se lá o que…

E hoje José, você ainda vê cores na sua vida? Você ainda encontra um motivo para acordar no dia seguinte?

Cadê você José?

– Baccili Junior

Flores não são mais românticas?

Olá!

Eu sou um romântico antiquado. Na minha época expressava-se sentimentos de afeto como carinho e amor com presentes como ursinhos de pelúcia, cestas de café da manhã, cartas e o mais lindo de todos: Flores.

É meu amigo, flores! Não existia hora nem lugar, uma dúzia delas era capaz de sacudir qualquer coração, balançar estruturas e fazer toda mulher começar a considerar um pouco a pessoa que a deu. E não estou falando do entregador.

Dar flores era a arma mais poderosa contra um coração ressentido, um amor impossível ou uma pessoa indiferente.  Como diria Vinícius:

” (…) Que uma rosa não é só uma flor
Uma rosa é uma rosa é uma rosa
É a mulher recendendo de amor”

Bons tempos aqueles…

Hoje em dia tudo mudou, as flores não tem mais o mesmo impacto, a mesma alegria, o mesmo sentido. Dar flores se tornou fora de moda! Não se pode mais recebê-las no seu trabalho! É vergonhoso e constrangedor demais ser exposta ao ridículo das flores.

É, estou ficando velho mesmo… hoje em dia o romance está nos 140 caracteres do twitter, no SMS cheio de palavras truncadas como “vc”, “tb”, “s2” e no “curtir” do Facebook.  Não preciso mais me preocupar em fazer uma letra bonita para mandar um cartão porque ele é virtual, e não preciso me preocupar em ser sofisticado e criativo, porque afinal de contas, para que servem as frases feitas para envio de SMS no celular?

O problema é que eu não sou tão velho assim, pertenço a geração Y e estou acostumado com tecnologia, mas fui pego de surpresa pela banalização de um gesto…  Será que existe alguém hoje em dia que ache o mesmo que eu, ou seria o romantismo como o conheci algo do século passado?

– Baccili Junior

Você se arrepende dos seus atos?

Olá!

Retomo este blog após vários anos em que saí pelo mundo para fazer besteiras, me arrepender e dar a volta por cima.

Como será possível alguém nunca se arrepender de nada que tenha feito? Eu me arrependo de muita coisa que fiz, das pessoas que magoei, das dores que trouxe, e não há nada de errado nisso.  Eu ouço pessoas de todas as idades me dizendo que eu não devo me arrepender de nada, mas não concordo. Se fizemos besteira, se magoamos as pessoas que amamos (ou até as que não amamos) temos que nos arrepender, pedir desculpas, perdão, e dependendo do erro, se ajoelhar em sinal de humildade e verdadeira aceitação a culpa.

Quem diz que não devemos nos arrepender de nada que fizemos quer fugir da responsabilidade transcendental que é refletir, pensar na merda que fez ou tocar na ferida, se preferir. A origem da palavra “arrependimento” quer dizer mudança de atitude ou seja, atitude contrária ou oposta áquela tomada anteriormente. Completamente diferente do remorso.

Remorso é a fuga psicológica em que a pessoa que sofre não está sensibilizada verdadeiramente com o mal que causou a outrem e que, em uma tentativa egoísta, pensando apenas no próprio bem é capaz até de causar a si mesmo algum tipo de castigo como forma de auto-flagelação, e essa atitude tem o objetivo de se esquivar de sofrer uma punição ainda mais severa, que pode ou não acontecer. Quem está verdadeiramente arrependido percebe e se sensibiliza de tudo o que fez, tomando real consciência das coisas ruins que seus atos causaram para outras pessoas, ou que ele acredita ter causado.

Essa real sensibilização a dor alheia é que leva ao arrependimento e a verdadeira tristeza pelo dano que causou. Uma pessoa que se arrepende de algo dificilmente torna a repetir o mesmo erro, já que tomou a decisão de não mais causar mal aos outros.

Se arrepender é conhecer a si mesmo.

– B. J.